PF identifica negócios de Vorcaro com filha de Otto Alencar e aliado de Jaques Wagner

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PF identifica negócios de Vorcaro com filha de Otto Alencar e aliado de Jaques Wagner

Conversas obtidas pela Polícia Federal revelam financiamento à startup Ecoari e tratativas sobre obras de arte; B3 comunicou movimentações consideradas incompatíveis com o porte da empresa.

Por Amanda Almeida | NinjaFSA | 9 de outubro de 2026

Imagem da cobertura sobre Daniel Vorcaro e as relações comerciais investigadas pela Polícia Federal
Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro revelam negociações com pessoas próximas a lideranças políticas baianas. Reprodução.
Entenda a notícia em poucos pontos
  • Daniel Vorcaro negociou financiamento para a startup Ecoari, administrada por Isadora Alencar, filha do senador Otto.
  • A B3 comunicou ao Coaf valores superiores a R$ 9 milhões em ativos da empresa no Banco Master durante 2024.
  • Guilherme Sodré, aliado de Jaques Wagner, conversou com Vorcaro sobre obras de arte e encaminhou o contato do senador.
  • Isadora afirma que o empréstimo foi legal; Otto e Wagner negam envolvimento em irregularidades ou negócios atribuídos a eles.

Mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam negócios com pessoas próximas aos senadores baianos Otto Alencar (PSD) e Jaques Wagner (PT). Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (9) pela Folha de S.Paulo, as conversas incluem financiamento a uma startup de reciclagem pertencente à filha de Otto e negociações de obras de arte com um aliado de Wagner.

Os contatos ocorreram principalmente em 2024, antes da operação policial que levou à prisão de Vorcaro em novembro de 2025. Parte da documentação também aponta movimentações financeiras comunicadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

As mensagens ajudam a reconstruir a rede de relacionamentos empresariais do ex-banqueiro, mas não demonstram, por si só, participação dos senadores nas operações ou prática de crimes pelas pessoas mencionadas.

Filha de Otto Alencar negociou financiamento para startup

Uma das frentes identificadas envolve Isadora Alencar, filha de Otto Alencar, e a Ecoari, empresa de Salvador voltada à reciclagem. A startup utiliza um modelo de incentivo financeiro para estimular o descarte de resíduos em locais específicos.

As conversas analisadas pela Folha mostram que Isadora procurou Vorcaro em setembro de 2024 para discutir uma possível operação de investimento e aquisição relacionada à empresa.

Segundo a reportagem, o contato teria sido facilitado por uma pessoa identificada como Ciro, possivelmente o advogado Ciro Soares, próximo à família Alencar. A empresária chegou a agendar uma reunião com o então banqueiro.

Dias depois, ela comunicou a abertura de uma conta no Banco Master e, posteriormente, a assinatura de contrato e a liberação de recursos pela instituição.

Captura de conversa entre Daniel Vorcaro e Isadora Alencar sobre contatos e reuniões
Reprodução de conversa atribuída a Daniel Vorcaro e Isadora Alencar, divulgada pela Folha de S.Paulo.

Em outro momento, Isadora consultou Vorcaro sobre como aplicar parte do dinheiro recebido. O ex-banqueiro sugeriu conversar com um integrante de sua equipe e indicou uma aplicação em CDB com liquidez, para permitir acesso aos recursos quando necessário.

A empresária afirmou à Folha que o negócio de aquisição discutido anteriormente não chegou a ser concluído. Já o empréstimo bancário, segundo ela, ocorreu regularmente.

“A mencionada movimentação financeira diz respeito a um empréstimo regular.”

Isadora Alencar, em manifestação divulgada pela Folha de S.Paulo.

Isadora acrescentou que as conversas tiveram natureza profissional e que a Ecoari atua conforme princípios de legalidade, transparência e governança empresarial.

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B3 alertou Coaf sobre valores custodiados no Banco Master

O relacionamento financeiro entre a Ecoari e o Banco Master chamou atenção em registros analisados pela reportagem.

Documentos obtidos pela Folha indicam que a B3, responsável por infraestrutura do mercado financeiro brasileiro, realizou três comunicações ao Coaf sobre valores mantidos pela startup sob custódia do banco.

Em outubro e novembro de 2024, os registros apontavam mais de R$ 9 milhões em ativos. A avaliação apresentada nos documentos indicava que o montante não era compatível com o porte e o patrimônio estimado da pessoa jurídica.

Em setembro de 2025, houve outro alerta, desta vez relativo a aproximadamente R$ 2,8 milhões. O registro ocorreu depois de o Banco Central barrar a tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Os números da operação

Mais de R$ 9 milhões: ativos custodiados no Banco Master em outubro e novembro de 2024, segundo alertas comunicados ao Coaf.

R$ 2,8 milhões: valor registrado em nova comunicação realizada em setembro de 2025.

Três comunicações: número de alertas da B3 mencionados na documentação obtida pela Folha.

Importante: valores sob custódia não equivalem necessariamente a recursos desviados, e as comunicações não comprovam irregularidades criminais.

O Coaf recebe e analisa comunicações de operações consideradas atípicas ou suspeitas. Esses registros podem subsidiar investigações, mas não representam uma condenação nem uma conclusão definitiva sobre a origem do dinheiro.

Aliado de Jaques Wagner negociou obras de arte com Vorcaro

Outra parte das mensagens envolve Guilherme Sodré, conhecido como Guiga. Ele é descrito pela Polícia Federal como uma pessoa de confiança e um articulador próximo do senador Jaques Wagner.

Guiga também mantém uma relação familiar indireta com o parlamentar: é pai de Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente da Bahia e enteado de Wagner.

De acordo com os diálogos divulgados, Guiga apresentou a Vorcaro informações sobre obras de artistas brasileiros reconhecidos, entre eles Candido Portinari e Alberto da Veiga Guignard.

As tratativas mencionam obras como Casamento na Roça, de Portinari, e Ouro Preto, de Guignard. Também aparecem convites para visitas a galerias e encontros relacionados ao mercado de arte.

Segundo a Folha, em agosto de 2024, Guiga encaminhou a Vorcaro o número de telefone de Jaques Wagner após uma conversa telefônica.

O envio do contato é um elemento identificado nas mensagens, mas não confirma que uma reunião tenha ocorrido ou que o senador tenha participado dos negócios discutidos entre terceiros.

Wagner nega intermediação e relação comercial

Em entrevista à rádio Piatã FM, nesta sexta-feira (9), Jaques Wagner negou ter intermediado a compra de obras de arte por meio de Guiga ou participado das negociações atribuídas ao ex-controlador do Banco Master.

O senador reconheceu a amizade de longa data com Guilherme Sodré, que remonta ao período em que atuava no movimento sindical, mas rejeitou qualquer relação comercial com o caso.

A defesa de Wagner também informou à Folha que o parlamentar não participou das conversas sobre o envio de seu telefone e desconhece o contexto em que o contato foi compartilhado.

Segundo seus representantes, Wagner não atuou para favorecer os interesses do Banco Master. O senador afirmou anteriormente que teve apenas contatos pontuais com Vorcaro.

Otto Alencar também nega encontro com ex-banqueiro

O senador Otto Alencar, pai de Isadora, declarou anteriormente ao jornal O Globo que não havia se encontrado com Vorcaro.

A reportagem da Folha procurou Otto e Guiga para manifestações adicionais, mas não obteve novas respostas deles até a publicação.

A declaração de Isadora sobre a regularidade do empréstimo e a negativa de Otto são informações distintas: as conversas documentam tratativas comerciais da empresária, sem estabelecer participação do senador na contratação.

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Negociações integram apurações sobre o Banco Master

As mensagens foram obtidas no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master e à atuação de Daniel Vorcaro.

A Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, passou a examinar suspeitas envolvendo operações financeiras e relações empresariais mantidas pelo antigo controlador da instituição.

Os novos documentos revelados pela imprensa mostram que essa rede de contatos também alcançava empresários e pessoas próximas a lideranças políticas da Bahia.

Ainda assim, é necessário separar os negócios efetivamente documentados de hipóteses de irregularidade. A realização de um empréstimo, a negociação de uma pintura ou a troca de contatos, isoladamente, não constituem prova de crime.

A avaliação sobre a legalidade das operações dependerá do exame dos contratos, da origem dos recursos e dos demais elementos reunidos pelas autoridades, com direito de manifestação e defesa das pessoas envolvidas.

Fontes: Folha de S.Paulo, reportagem de José Marques e João Gabriel, publicada em 9 de outubro de 2026; Bahia Notícias, BNews e entrevista de Jaques Wagner à rádio Piatã FM.
Nota editorial: dados sobre movimentações atípicas não representam comprovação de atividade criminosa.
Consultar reportagem original da Folha.

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