Férias sob risco: como eventos climáticos ameaçam a segurança e o bolso de quem vive do turismo

Estudo da UnB revela que mais de 80% das regiões turísticas do país sofreram com temporais e secas extremas nos últimos anos, exigindo mudanças urgentes na rotina e na economia local.
Resumo da Notícia
  • 83,6% das regiões do Mapa do Turismo foram atingidas por eventos climáticos extremos entre 2020 e 2025.
  • Pesquisa da UnB aponta crescimento de desastres nas últimas quatro décadas sem planejamento preventivo adequado.
  • Especialistas alertam para a necessidade de adaptar cidades e destinos turísticos para proteger moradores e a economia local.
Férias sob risco: como eventos climáticos ameaçam a segurança e o bolso de quem vive do turismo
Foto: Divulgação / agenciabrasil.ebc.com.br / agenciabrasil.ebc.com.br (Uso jornalístico / Divulgação oficial (agenciabrasil.ebc.com.br))

O impacto dos temporais e das secas na rotina das famílias vai muito além dos prejuízos materiais imediatos: ele mexe diretamente com o sustento de quem vive em áreas de passeio e lazer. A segurança de moradores e visitantes e a geração de renda nos destinos mais procurados do país estão sob forte ameaça da instabilidade climática, conforme aponta um novo levantamento divulgado por pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB).

O peso no dia a dia

Quando a infraestrutura de uma cidade turística é atingida por desastres ambientais, quem mora no local sofre com estradas interrompidas, falta d’água e danos às moradias. Ao mesmo tempo, o pequeno comerciante e o trabalhador autônomo viram o orçamento minguar com a queda no fluxo de visitantes, provando que a vulnerabilidade climática afeta diretamente o bolso e o bem-estar da população.

Radiografia da vulnerabilidade nacional

O estudo ‘Eventos climáticos extremos no turismo brasileiro: o confronto entre os impactos e as (re)ações’ trouxe dados preocupantes ao cruzar informações do Banco de Dados de Eventos de Emergência — abrangendo o histórico de 1990 a 2025 — com o planejamento oficial do setor. O resultado mostra que 301 das 360 regiões turísticas catalogadas foram atingidas por eventos extremos entre 2020 e 2025, o que representa impressionantes 83,6% do total.

Regiões turísticas afetadas83,6%
Regiões não afetadas16,4%

Enquanto o país celebrava o recorde de 9 milhões de turistas estrangeiros alcançados em 2025 — superando a média de 6 milhões de visitantes estrangeiros de média na década anterior —, a estrutura de acolhimento permaneceu desguarnecida. A análise de quase 100 atas de reuniões do Conselho Nacional de Turismo e de 30 documentos complementares de políticas públicas revelou que o aumento de desastres nas últimas quatro décadas ocorreu sem que houvesse o devido acompanhamento de ações preventivas.

O que é o Mapa do Turismo

O Mapa do Turismo Brasileiro é um instrumento gerido pelo Ministério do Turismo que cataloga municípios com vocação ou atividade turística relevante, organizando-os em 360 regiões para orientar o direcionamento de recursos e políticas públicas no país.

A voz dos especialistas

pesquisadores e líderes setoriais reforçam que a prevenção não pode mais ser ignorada, exigindo planejamento estruturado e integração entre os diferentes atores da sociedade.

“Deixar de tratar esses eventos como algo excepcional e reconhecer esta nova realidade, planejar e agir para minimizar seus efeitos é o mínimo que precisamos fazer, e cada região exigirá um conjunto de ações adaptadas à sua realidade.”

— Jaqueline Gil, pesquisadora e coautora do estudo da Universidade de Brasília (UnB)

A cobrança por mudanças estruturais também é defendida por entidades ligadas à atividade de aventura e ecoturismo, que apontam a urgência de superar medidas paliativas.

“Não podemos depender de respostas isoladas e paliativas, e a resposta à nova realidade deve ser a articulação entre conhecimento, boas práticas e diálogo entre empresas, o poder público e as comunidades locais.”

— Fernanda Dornelles, vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta)

Para a entidade, o setor tem potencial para ir além da exploração econômica:

“É uma agenda que depende de ciência, governança e participação do setor privado, na qual o turismo pode deixar de ser apenas um usuário da natureza para se tornar parte da estratégia de conservação e resiliência dos destinos”

— Fernanda Dornelles, vice-presidente da Abeta

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