A força de quem recomeça: cursinhos populares no Rio mudam a rotina de mulheres maduras rumo ao Enem

Projetos de baixo custo com apoio psicológico e mensalidades acessíveis permitem que alunas com mais de 50 anos superem barreiras e voltem a sonhar com a universidade pública.
Resumo da Notícia
  • Zélia José dos Santos, de 72 anos, e Paula Cristina dos Santos, de 55, retomam os estudos e encaram o Enem em busca de realizar o sonho da graduação.
  • O pré-vestibular popular do Sintuperj, criado em 1998, oferece mensalidades baixas de R$ 162 e suporte psicossocial para alunos que ficaram muito tempo longe da sala de aula.
  • Mulheres mais velhas representam de 20% a 30% do total de estudantes do cursinho, superando barreiras familiares e profissionais para mudar de vida.

Você já parou para pensar em como seria retomar os estudos depois de décadas longe das salas de aula? Para quem precisa pagar contas, cuidar da casa e criar os filhos, o tempo para si mesma costuma ficar para trás. No entanto, cursinhos populares no Rio de Janeiro estão provando que o cotidiano de dezenas de mulheres maduras pode mudar completamente através da educação, oferecendo uma nova perspectiva para quem deseja conquistar uma vaga em universidades públicas.

Como isso afeta você

A iniciativa mostra que o acesso à educação de qualidade e com baixo custo é fundamental para a inclusão de adultos e idosos. Para quem parou de estudar há anos, projetos comunitários oferecem um caminho viável para retomar a carreira e conquistar autonomia, provando que o aprendizado contínuo é para todas as idades.

Um recomeço que cabe no bolso e na rotina

Criado em 1998 pelo Sintuperj — sindicato dos servidores da Uerj —, o pré-vestibular localizado no campus Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ), tornou-se um porto seguro para esse público. O projeto atende uma faixa em que 20% a 30% dos estudantes são mulheres mais velhas. A mensalidade para o público geral é de R$ 162, contando com 10% de desconto para servidores da Uerj e a oferta de bolsas integrais para quem se encontra em situação de vulnerabilidade.

Além das aulas tradicionais, a estrutura do cursinho vai muito além do conteúdo programático. Conforme detalha a coordenadora pedagógica Raíssa Tabajara: “Temos projetos externos para fortalecer a base de alunos que não estudam há muito tempo. A gente não dá só aula, mas também oferecemos atendimento psicossocial, com aulas de autocuidado”.

“Não tive oportunidade quando nova. Tive família, precisava cuidar dos filhos, trabalhar fora de casa. Agora, resolvi cuidar de mim.”
Zélia José dos Santos, estudante de 72 anos
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Superando limites físicos e o desafio da prova

A rotina de preparação é intensa e exige foco total, especialmente com a chegada do primeiro dia das provas do Enem de 2026, marcado para o domingo, 8 de novembro, que exige a resolução de 90 questões objetivas e a elaboração de uma redação. A estudante Paula Cristina dos Santos, de 55 anos, que atua como técnica de enfermagem, relata as barreiras diárias que precisa vencer para alcançar sua meta: “Eu consegui uma nota para fazer fisioterapia, mas o que eu quero é medicina. Quero continuar na saúde. É um desafio grande, pela idade, pela doença de fibromialgia que me incapacita muito. Mas nunca é tarde para sonhar”.

Para lidar com as exigências da banca examinadora, a professora de redação Érika Rodrigues orienta as alunas sobre a importância de estruturar bem os textos. “Coerência precisa ser um dos pilares da argumentação. A gente recomenda ler bastante, ter repertório sócio-cultural. Mas não basta só citar esse repertório, tem que relacionar com esse argumento. Essa é uma das dificuldades que os alunos têm, mas, se eles treinarem, conseguem”, afirma a docente.

Entenda o que significa

Cursinho popular: Iniciativas mantidas por sindicatos, associações ou coletivos que oferecem preparação para vestibulares a preços simbólicos ou gratuitos, democratizando o acesso ao ensino superior para pessoas de baixa renda.

A professora também chama a atenção para os temas contemporâneos debatidos em sala, ressaltando que “a tecnologia é uma das apostas desse ano, porque vivemos um momento de alerta. O tema mexe não só com a interpretação de texto, mas também com a inferência daquela informação. Alertamos os alunos a terem cuidado com a desinformação. Um dos pilares da interpretação do texto é reconhecer uma desinformação”. Com mais de 2 mil alunos aprovados ao longo de sua história em universidades públicas, o cursinho do Sintuperj segue transformando vidas e abrindo portas para quem decidiu que o momento de brilhar é agora.

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