Coaf aponta que Vorcaro repassou valor superior ao admitido por Flávio Bolsonaro para filme ‘Dark Horse’
Relatório revela nova transferência de US$ 1,6 milhão ao fundo do longa-metragem após cobranças do senador, contrariando versão de que pagamentos haviam cessado.
O financiamento de “Dark Horse”, projeto cinematográfico focado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, voltou a ser alvo de apurações. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), tornado público nesta terça-feira (1º), mostra que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro fez repasses milionários à produção que ultrapassam o montante admitido publicamente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A nova documentação revela uma transferência de US$ 1,66 milhão (aproximadamente R$ 9 milhões) efetuada em setembro de 2025. O repasse ocorreu exatamente oito dias depois de o senador cobrar de Vorcaro a regularização de parcelas que estariam atrasadas. Essa constatação contraria a versão apresentada anteriormente pelo parlamentar, que sustentava que as injeções financeiras do ex-dono do Banco Master haviam sido encerradas em maio do ano passado.
Com esse pagamento adicional, o total comprovadamente enviado por Vorcaro para a produção do filme salta de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões — o equivalente a mais de R$ 65 milhões, na cotação da época. Os recursos tiveram como destino o Havengate Development Fund, um fundo sediado no estado do Texas, nos Estados Unidos, que é administrado por pessoas próximas à família Bolsonaro.
As investigações também apontam indícios de um oitavo pagamento. Em trocas de mensagens interceptadas em outubro de 2025, o publicitário Thiago Miranda, responsável por ajudar na captação de recursos, perguntou ao banqueiro sobre a liberação de mais dinheiro. Vorcaro respondeu de forma direta: “Sim. Liberei mais uma hoje”, e ainda pediu que Miranda apresentasse desculpas a Flávio Bolsonaro pela demora na transferência. Caso esse novo repasse seja confirmado pela quebra de sigilo, o desembolso total de Vorcaro pode encostar na casa dos R$ 72 milhões.
O acordo inicial negociado pelo senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro previa um aporte ainda maior para o projeto, estimado em US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões).
A Polícia Federal (PF), com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta agora rastrear o caminho final do dinheiro enviado ao exterior. Uma das principais linhas de investigação apura se o montante milionário foi integralmente utilizado na produção e finalização do filme, ou se parte dos recursos acabou sendo desviada para custear despesas pessoais do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em solo americano.
Procurada pela imprensa para explicar a divergência nas informações e os novos valores apontados pelo Coaf, a equipe de Flávio Bolsonaro optou por não entrar em detalhes. A assessoria do senador declarou apenas que o assunto “não é com a gente” e orientou que os questionamentos sobre os valores sejam direcionados à produtora responsável pelo longa-metragem.