Vorcaro troca de advogado no mesmo dia em que STF forma maioria pela prisão e abre caminho para delação
Pierpaolo Bottini e Roberto Podval saem da defesa; entra José Luís Oliveira Lima, o “Juca”, criminalista com histórico de acordos de delação premiada na Lava Jato. Movimento é lido nos bastidores como sinal de que o dono do Banco Master se prepara para fechar colaboração com a PF.

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No mesmo dia em que a Segunda Turma do STF formou maioria de 3×0 para manter Daniel Vorcaro preso na Penitenciária Federal de Brasília, o banqueiro dono do Banco Master trocou dois de seus três advogados. Saíram Pierpaolo Bottini e, possivelmente, Roberto Podval — ambos com conflitos de interesse que inviabilizariam a condução de um acordo de delação. Entrou José Luís Oliveira Lima, o “Juca”, criminalista com histórico de fechamento de acordos de colaboração premiada. Nos bastidores, a movimentação é interpretada por fontes do STF e da advocacia criminal como sinal de que Vorcaro prepara uma delação que pode atingir empresários, presidentes de partidos, ministros e políticos do Centrão. A PF já tem 8 celulares do banqueiro em análise pericial. A defesa oficial negou que qualquer tratativa de delação esteja em andamento.
O mesmo dia que selou a maioria pela manutenção de sua prisão também marcou uma reviravolta silenciosa na estratégia de Daniel Vorcaro. Na tarde desta sexta-feira (13), enquanto os votos de André Mendonça, Luiz Fux e Kássio Nunes Marques se acumulavam no plenário virtual do STF, o dono do Banco Master promovia uma troca cirúrgica em sua equipe jurídica — movimento que, nos bastidores do Judiciário e da advocacia criminal, tem um único significado possível: o caminho para a delação premiada foi aberto.
Pierpaolo Bottini, do escritório Bottini & Tamasauskas, formalizou sua saída subestabelecendo uma procuração para o novo defensor, alegando motivos pessoais. Roberto Podval ainda não assinou formalmente sua saída, mas a tendência, segundo fontes ouvidas pela CNN Brasil e pelo Metrópoles, é de que ele também deixe o caso. O motivo da saída de ambos é o mesmo que torna sua presença incompatível com um eventual acordo de colaboração: entre os nomes que Vorcaro poderia citar em uma delação estão grandes empresários, presidentes de partidos e políticos influentes — alguns deles clientes dos próprios advogados que estão de saída.
Quem assume a linha de frente da defesa é José Luís Oliveira Lima, o “Juca” — um dos criminalistas mais experientes do país em acordos de delação premiada. Na Lava Jato, foi o responsável por fechar colaborações premiadas que mudaram os rumos das investigações. No currículo recente, consta a defesa de Walter Braga Netto, o ex-candidato a vice-presidente de Bolsonaro preso pelas tentativas de golpe de Estado. Antes, representou José Dirceu no processo do mensalão. O perfil é descrito como “mais agressivo” pelos próprios pares — não apenas no sentido combativo, mas no sentido de avançar em estratégias que criminalistas mais tradicionais evitam.
A motivação atribuída a Vorcaro para considerar a delação é objetiva. Aliados do banqueiro afirmam que ele começou a pesar a possibilidade de colaboração a partir do momento em que entendeu que a prisão colocava em risco não apenas sua liberdade, mas também a de familiares — seu cunhado Fabiano Zettel está preso, e a PF aponta que seu pai, Henrique Vorcaro, ocultou R$ 2,2 bilhões de vítimas do Master em seu nome na gestora Reag. Uma delação poderia, em tese, reduzir o tempo de pena e proteger o avanço das investigações sobre pessoas próximas.

Nos bastidores, há ainda um detalhe técnico que torna o caso incomum: a possível delação poderia ser negociada diretamente com a Polícia Federal — e não com a Procuradoria-Geral da República. A Lei das Organizações Criminosas prevê essa possibilidade, embora ela seja pouco utilizada. O criminalista Paulo Suzano, ouvido pelo Metrópoles, resumiu o cenário com precisão: “O caso de Vorcaro é muito singular, e um caso tão inédito também deve ter soluções inéditas.” A PF já tem oito celulares do banqueiro em análise pericial — três foram recolhidos no momento da segunda prisão, em 4 de março. Os aparelhos ainda não passaram por perícia técnica completa e devem revelar novas conversas com autoridades dos três poderes.
“A pessoa só envereda pela colaboração premiada caso venha a colaborar com investigação e possa trazer, entre outras coisas, a dissolução de alguma organização criminosa.”
— Paulo Suzano, advogado criminalista, ao Metrópoles
O peso político do que Vorcaro pode revelar é o que torna a situação explosiva. As primeiras extrações de celulares já apontaram contatos com autoridades dos três poderes — incluindo uma mensagem em que o banqueiro, no dia em que foi preso pela primeira vez, em novembro de 2024, perguntava se alguém havia conseguido “bloquear” algo. O ministro Alexandre de Moraes negou ser o destinatário da mensagem. Além disso, um contrato de cerca de R$ 130 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes — esposa do ministro — já havia alimentado questionamentos sobre a proximidade entre as partes.
O que uma delação de Vorcaro pode revelar
A defesa formal nega qualquer tratativa em andamento. Mas a troca de advogados fala por si — e o mercado de informações de Brasília interpreta movimentos desse tipo antes mesmo das notas oficiais. O julgamento virtual no STF segue aberto até as 23h59 do dia 20 de março. Ainda falta o voto do ministro Gilmar Mendes, presidente da Segunda Turma. Com três votos a zero em favor da manutenção da prisão, o resultado final já não deve mudar — mas o que vem depois disso pode sacudir o País de um jeito muito mais profundo do que o placar de um julgamento.
