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Opinião: A esquerda, Moraes e a memória curta
Opinião

O PT e a esquerda devem lembrar que Moraes, o “tucano”, é cria de Michel Temer

O silêncio do campo progressista diante dos escândalos do Banco Master e a aliança com o STF apagam um passado de duros embates; a história mostra que, na política, o chicote sempre muda de mão.

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Redação NINJAFSA
19/02/2026 • 20:45

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política brasileira é movida a conveniências de curto prazo, e a memória parece ser o primeiro atributo descartado quando o jogo de poder exige novos aliados. A atual postura do Partido dos Trabalhadores (PT) e de grande parte da esquerda em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF) — mais especificamente à figura do ministro Alexandre de Moraes — é o exemplo mais bem-acabado dessa amnésia tática.

Nesta semana, vimos o ministro Alexandre de Moraes utilizar do seu peso institucional para determinar que a Polícia Federal intime Kleber Cabral, presidente da Unafisco. O “crime” do auditor? Ter dado declarações criticando decisões judiciais que paralisaram investigações da Receita Federal sobre movimentações financeiras milionárias envolvendo a própria família de Moraes e do ministro Dias Toffoli, no contexto do cada vez mais intrincado escândalo do Banco Master.

Diante de uma clara demonstração de força que, em outros tempos, seria imediatamente rotulada como “autoritarismo” ou “mordaça institucional”, o silêncio da esquerda é ensurdecedor. Para proteger os ministros que foram fundamentais no embate contra Jair Bolsonaro, a base governista chega ao ponto de se aliar nos bastidores para enterrar a CPI do Banco Master. Mas a troco de quê?

“Até 2018, Alexandre de Moraes e Michel Temer eram classificados pela esquerda como os piores adversários possíveis. Hoje, o cálculo político transformou antigos algozes em heróis intocáveis.”

É preciso voltar um pouco no tempo. A esquerda parece ter esquecido quem é Alexandre de Moraes. Antes de vestir a toga, ele era conhecido como o “tucano” de carteirinha. Como Secretário de Segurança Pública de São Paulo sob o governo de Geraldo Alckmin (então no PSDB), Moraes foi alvo de duros protestos dos movimentos estudantis e sindicais devido à repressão policial contundente contra as manifestações populares.

Mais do que isso: Moraes é “cria” política de Michel Temer. Foi Temer — o homem que o PT e toda a esquerda acusam de ser o grande articulador e responsável pelo Golpe de 2016 contra Dilma Rousseff — quem o alçou ao Ministério da Justiça e, posteriormente, lhe deu a cadeira vitalícia no Supremo Tribunal Federal. Até as vésperas de 2019, antes da instauração do Inquérito das Fake News, não havia perdão da esquerda para Temer ou Moraes.

O PT e a esquerda devem lembrar que Moraes, o “tucano”, é cria de Michel Temer

A virada de chave ocorreu quando o bolsonarismo elegeu a Corte como sua principal inimiga. A partir dali, qualquer crítica ao STF ou a Moraes passou a ser classificada como um “atentado contra a democracia”. A esquerda abraçou seu antigo algoz como o grande defensor do Estado de Direito.

No entanto, o pragmatismo cego cobra um preço altíssimo. Ao ignorar denúncias graves — como o escândalo financeiro do Banco Master e a intimidação de auditores fiscais — apenas para não fortalecer a narrativa da extrema-direita, o campo progressista valida a criação de uma estrutura de poder intocável e isenta de fiscalização.

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A história da política nacional ensina uma lição amarga: o “chicote” sempre muda de mão. Os superpoderes excepcionais concedidos e aplaudidos hoje, sob a justificativa de combater um mal maior, permanecerão intactos amanhã. Assim como ocorreu no processo que culminou em 2016 e na Operação Lava Jato, a esquerda poderá, muito em breve, se ver novamente como o alvo principal dessas mesmas canetas.

A democracia não se sustenta criando “monstros” institucionais supostamente do bem, mas sim exigindo transparência, limites e prestação de contas de todos os poderes. Inclusive daqueles que, momentaneamente, parecem estar do seu lado.

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