Lançado com grande alarde como a salvação para a frota nacional e para o bolso dos trabalhadores de transporte, o programa “Move Motoristas” tornou-se motivo de frustração no Governo Federal. Os dados mais recentes apontam que a iniciativa, voltada para a renegociação de dívidas e financiamento de veículos novos para a categoria, atingiu menos de 20% da meta estipulada pelo Ministério da Fazenda.

A premissa do programa parecia infalível num país onde o transporte rodoviário e os aplicativos de mobilidade sustentam milhões de famílias. Contudo, o cenário econômico macro falou mais alto. O Brasil regista atualmente um índice histórico de endividamento, com cerca de 82% das famílias possuindo algum tipo de dívida ativa, seja no cartão de crédito, cheque especial ou financiamentos atrasados.

Publicidade Publicidade

A Barreira da Burocracia

A baixa adesão não se deve à falta de interesse da classe. O grande gargalo ocorreu no balcão dos bancos. Para acessar as condições facilitadas do “Move Motoristas”, as instituições financeiras parceiras (inclusive bancos públicos como a Caixa Econômica e o Banco do Brasil) exigiam uma série de garantias e comprovações de renda formal que a grande maioria dos motoristas de aplicativo e caminhoneiros autônomos não possui.

O ciclo vicioso do crédito:
Muitos motoristas que tentaram aderir ao programa já estavam com restrições no CPF (o famoso “nome sujo”) devido aos altos custos com combustível e manutenção dos veículos. Como as regras de análise de crédito dos bancos permaneceram rígidas, a maioria dos pedidos de renegociação ou financiamento para a troca de frota foi negada pelo sistema de score de crédito.
O governo lançou um bote salva-vidas, mas colocou um cadeado nele. Como é que um motorista de aplicativo, que fatura por dia para comer à noite e pagar a parcela do carro alugado, vai comprovar margem de lucro limpa para o gerente do banco? O programa falhou por não entender a realidade de quem está no asfalto. Representante da Associação de Motoristas de Aplicativo da Bahia

Na Bahia, em especial em cidades como Feira de Santana, que funciona como um dos maiores entroncamentos logísticos rodoviários do Norte e Nordeste, o impacto do fracasso da medida é sentido diretamente. Sem acesso a crédito barato, muitos caminhoneiros e motoristas estão sendo obrigados a abandonar a profissão ou a rodar com veículos velhos e sem manutenção, elevando os riscos de acidentes nas rodovias.

Diante do baixo desempenho, integrantes do Palácio do Planalto admitem nos bastidores que o Ministério da Fazenda precisará redesenhar as regras do programa. A equipe econômica estuda agora a criação de um fundo garantidor direto, nos moldes do que foi feito para pequenas empresas durante a pandemia, para tentar convencer os bancos a assumirem os riscos de emprestar dinheiro a essa categoria essencial, porém financeiramente vulnerável.

Publicidade Publicidade