O sistema financeiro brasileiro amanheceu sob forte turbulência. A Polícia Federal (PF) deflagrou na manhã desta terça-feira a Operação Miragem, com o objetivo de desarticular um suposto esquema de fraudes e crimes milionários contra o sistema financeiro nacional.

O alvo principal e central da ofensiva é o Banco Digimais, instituição financeira controlada desde 2020 pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário do Grupo Record.

A pedido da PF, a Justiça Federal autorizou a quebra imediata dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, além de decretar o bloqueio preventivo de bens que podem alcançar a cifra de R$ 670 milhões. Mais de 50 agentes cumprem mandados de busca e apreensão na sede administrativa do banco, na ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários, e em fundos de investimento ligados ao grupo, todos em São Paulo.

Foco na “Maquiagem Contábil”

A investigação criminal teve origem em relatórios rigorosos produzidos pelo Banco Central do Brasil (BC), que detectaram graves indícios de irregularidades e operações de crédito vedadas pela legislação na gestão da instituição.

A Ilusão Financeira:
Segundo a PF, a principal linha de investigação aponta que diretores e executivos do Digimais promoveram uma fraude contábil organizada e sistemática. Para ludibriar os órgãos fiscalizadores e continuar operando no mercado de crédito (especialmente financiamento de veículos e consignado), o esquema teria inserido uma “renda fictícia” de cerca de R$ 199 milhões nos demonstrativos do banco, ocultando a sua verdadeira situação de prejuízo e insolvência.

Os investigadores notaram que os executivos do Digimais teriam replicado uma estratégia fraudulenta muito semelhante à utilizada pelo Banco Master — que também é alvo de operações eCPIs recentes —, aproveitando-se indevidamente da proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Rebaixamento e Dificuldades

O impacto da fraude e das investigações foi imediato no mercado. A agência de classificação de risco Fitch Ratings rebaixou drasticamente a nota do Digimais nas últimas horas, citando “incertezas sobre a situação financeira” e a ausência de informações confiáveis, prevendo um risco real de falência (default).

A situação financeira da instituição chegou a um ponto tão crítico que, segundo a PF, em abril de 2026, o banco negociou apressadamente a venda do seu controle para o BTG Pactual devido à extrema dificuldade de liquidez para honrar os compromissos diários.

O que diz a defesa

Embora conste no inquérito como proprietário direto da instituição desde que comprou a parte de outros acionistas minoritários, o bispo Edir Macedo não foi alvo de mandados de busca e apreensão porque reside atualmente fora do Brasil. No entanto, ele figura na lista de investigados pela Polícia Federal.

Em nota oficial divulgada à imprensa, o Banco Digimais e a Igreja Universal afirmaram que confiam na lisura das apurações e que permanecem à inteira disposição das autoridades. “A instituição reafirma o seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com os órgãos competentes. Os advogados acompanham o processo de perto para garantir a rápida elucidação da verdade”, declarou a empresa.