O relógio começou a contar na madrugada de sábado para domingo. Às 23h15 do horário de Brasília de sábado (21), Donald Trump postou na Truth Social um ultimato: o Irã tinha 48 horas para reabrir totalmente o Estreito de Ormuz ou veria suas usinas de energia “obliteradas”, a começar pela maior. Vinte e quatro horas depois, Teerã respondeu com a mesma moeda. A Guarda Revolucionária emitiu comunicado anunciando que o estreito será completamente fechado caso os EUA ataquem e que só voltará a funcionar depois que as centrais destruídas sejam reconstruídas. O prazo vence nesta segunda-feira (23).

O cenário desta manhã de domingo é de escalada em todas as frentes. O Irã lançou mísseis que atravessaram as defesas antiaéreas israelenses e atingiram as cidades de Dimona e Arad, no sul de Israel, deixando mais de 80 feridos em Arad — perigosamente próximo ao Centro de Pesquisa Nuclear do Negev. Netanyahu visitou os escombros e chamou de “milagre” o fato de não ter havido mortes, declarando que Israel irá atrás de todos os dirigentes iranianos, “pessoalmente”. No norte do país, um civil morreu em ataque do Hezbollah. Sirenes soaram por todo o território israelense durante horas.

As ameaças iranianas vão além do estreito. O presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, declarou que as infraestruturas críticas e as instalações de energia de países aliados dos EUA na região serão “irreversivelmente destruídas” se as centrais iranianas forem atacadas. O Iraque e a Arábia Saudita já foram alvos: três mísseis balísticos tiveram Riad como destino. Os Emirados Árabes disseram ter repelido ataques com mísseis e drones. E a Guarda Revolucionária anunciou ter abatido um caça F-15 que sobrevolava a costa sul do Irã — um vídeo do suposto abate circulou neste domingo pela agência estatal IRNA.

O embaixador do Irã na Organização Marítima Internacional, Ali Mousavi, tentou matizar o discurso da Guarda Revolucionária, afirmando que o Estreito de Ormuz permanece tecnicamente aberto — mas apenas para navios de países que não sejam considerados “inimigos do Irã”. Na prática, o canal que normalmente conduz 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito transportados no mundo está efetivamente bloqueado para a maioria dos petroleiros há mais de três semanas, provocando cortes na produção de grandes exportadores que não têm para onde escoar o petróleo bruto. A escalada foi uma das causas da alta do barril do tipo Brent, que passou de US$ 60 para mais de US$ 100 no início do mês — e que levou a Petrobras a reajustar o diesel no Brasil em R$ 0,38 por litro.

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Impacto econômico global — o que está em jogoO fechamento total do Estreito de Ormuz interromperia o transporte de cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia — quase um quinto do consumo mundial. Analistas projetam que o barril poderia ultrapassar US$ 150 em cenário de bloqueio prolongado, com efeito direto nos preços de combustíveis, alimentos e frete no mundo inteiro, incluindo no Brasil.

A posição dos EUA é ambígua nos bastidores. Trump voltou ao tom belicoso depois de ter sinalizado, apenas um dia antes do ultimato, que queria “reduzir” o conflito. A guinada surpreendeu aliados europeus e gerou tensão com a ONU. O Kremlin disse que a Europa “não tem poder para chantagear ninguém” sobre o Estreito. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou que o conflito entrou em uma “fase perigosa” com os ataques próximos ao complexo de Dimona — considerado o coração do programa nuclear israelense, embora Israel mantenha sua política de “ambiguidade estratégica” sobre o tema.

“O Estreito de Ormuz será completamente fechado e só será reaberto quando nossas usinas hidrelétricas destruídas forem reconstruídas.”
— Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, em comunicado oficial deste domingo (22)

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian publicou no X que “ameaças e terror apenas fortalecem nossa unidade” e que o Irã “confronta firmemente as ameaças delirantes no campo de batalha”. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, reiterou que a proibição de passagem afeta apenas navios de países “inimigos” — mas não especificou quais seriam esses países ou como a distinção seria operacionalizada. Enquanto o prazo do ultimato de Trump corre, fuzileiros navais dos EUA e embarcações pesadas de desembarque continuam se deslocando em direção à região.

Linha do tempo da escalada

  • Início de março/2026
    Guerra entre a coalizão EUA-Israel e o Irã começa. Barril do Brent dispara de US$ 60 para mais de US$ 100. Estreito de Ormuz começa a ser bloqueado.
  • 19 mar. 2026
    Navios de carga tentam ainda navegar pelo Golfo Arábico em direção ao estreito sob crescente pressão.
  • 20 mar. 2026
    Trump sinaliza interesse em “reduzir” o conflito, gerando esperança de desescalada.
  • 21 mar. 2026 — 23h15 (Brasília)
    Trump muda de tom e publica ultimato na Truth Social: 48 horas para o Irã reabrir o estreito ou ver usinas “obliteradas”.
  • 22 mar. 2026
    Irã bombarda Dimona e Arad (Israel), ataca Iraque e Arábia Saudita, lança mísseis em direção a Diego Garcia e anuncia fechamento total do estreito como retaliação a ataques nas usinas.
  • 23 mar. 2026 — noite
    Prazo do ultimato de Trump vence. Decisão de atacar ou não as usinas iranianas pode mudar o curso do conflito.
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