Há três décadas, a queda de um avião da TAM em São Paulo deixou 99 mortos e deu origem a leis de amparo às famílias e mudanças drásticas na aviação civil.
Resumo da Notícia
- Queda de aeronave da TAM em São Paulo ocorreu 24 segundos após a decolagem em outubro de 1996.
- Tragédia resultou na morte de 96 pessoas a bordo e três em solo, além de marcar uma guinada histórica na aviação.
- Luta de familiares transformou a legislação brasileira, tornando obrigatória a assistência a parentes de vítimas.
A rotina de quem viaja de avião no Brasil carrega marcas invisíveis deixadas por tragédias que mudaram a história da aviação civil. Um dos episódios mais marcantes dessa trajetória completa três décadas de reflexão sobre segurança, direitos e a dor de quem ficou.
Na manhã de 31 de outubro de 1996, o médico cardiologista José Rahal Abu Assali despediu-se da esposa, Sandra Assali, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ele embarcaria em um voo da TAM com destino ao Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, a realidade daquela família e de todo o país desmoronou.
Apenas 24 segundos após decolar, às 8h30, a aeronave modelo Fokker 100 sofreu uma falha mecânica gravíssima: o reversor da turbina direita abriu incorretamente em pleno voo. O avião desestabilizou, tombou para a direita, atingiu três prédios e caiu sobre residências na Rua Luís Orsini de Castro, no bairro do Jabaquara, a cerca de dois quilômetros do aeroporto. O impacto gerou um incêndio devastador que vitimou todas as 96 pessoas a bordo e três moradores em solo.
Como isso afeta você
Antes de 1996, as companhias aéreas não tinham qualquer obrigação legal de prestar amparo material ou psicológico aos familiares após um acidente aéreo. A luta dos parentes das vítimas transformou a legislação, garantindo hoje direitos fundamentais de assistência, além de padrões mais rigorosos de investigação e segurança na aviação comercial brasileira.
Para Sandra Assali, a notícia chegou com uma rapidez cruel. “A perda de alguém sempre marca. Você lembra o momento em que você recebeu essa notícia. Imagine então para um familiar. Para mim, a memória que eu tenho foi de ter deixado o meu marido no aeroporto e, em questão de 40 minutos, já tive a confirmação da perda dele”, relata.
Entenda o que significa
O reversor de empuxo é um sistema utilizado nas turbinas para ajudar a desacelerar a aeronave logo após o pouso, direcionando o fluxo de ar para a frente. A abertura desse mecanismo durante a decolagem gera uma perda súbita de sustentação e controle, configurando uma falha extremamente rara para a qual os pilotos da época não dispunham de protocolos de treinamento específicos.
Diante do vazio e da falta de suporte institucional na época, os familiares se uniram. Em 1997, fundaram a Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa), entidade que passou a exigir respostas, cobrar mudanças e acolher quem enfrentava o mesmo luto repentino.
“Há um antes e um depois desse acidente. Mudou-se a forma de investigar, mudou-se a forma das indenizações, mudou também a forma de se trabalhar com a reparação das famílias. Mudou até a assistência para familiares de vítimas, que não existia e passou a existir com a Abrapavaa.” — Sandra AssaliA atuação da associação ajudou a reescrever protocolos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e forçou a aviação a encarar a reparação humana como prioridade, e não apenas como burocracia. O modelo Fokker 100, associado à tragédia, acabou sendo retirado de circulação pela companhia aérea anos mais tarde, em 2008.
Mesmo com os avanços conquistados ao longo de décadas, a cobrança por melhorias continua constante. Para quem transformou a dor em motor de justiça, a vigilância sobre a segurança nos céus do país precisa ser permanente para que vidas sejam preservadas.