Sete em cada dez brasileiros querem trabalhar menos. Essa é, em resumo, a mensagem do mais recente levantamento do Datafolha sobre o fim da escala 6×1, pesquisa divulgada no sábado (14) pela Folha de S.Paulo. Com 71% de aprovação, o apoio à redução da jornada máxima de trabalho atingiu seu maior patamar desde que o tema entrou com força no debate público — em novembro de 2024, quando manifestações tomaram a Avenida Paulista com o empurrão do movimento criado pela influenciadora Rick Azevedo.

O dado mais revelador da pesquisa não é o número em si, mas a sua velocidade de crescimento. Em apenas três meses — entre dezembro de 2024 e março de 2026 —, o apoio saltou de 64% para 71%, enquanto a rejeição despencou de 33% para 27%. São sete pontos de diferença em favor da proposta, conquistados em um trimestre em que o tema ainda não avançou concretamente no Congresso. A tendência sugere que, quanto mais o assunto é debatido, mais a população adere à ideia.

O perfil de quem apoia a mudança revela um dado politicamente significativo: o apoio é majoritário em todos os grupos — mesmo naqueles historicamente associados a posições mais conservadoras sobre direitos trabalhistas. Entre os eleitores de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, 55% são favoráveis ao fim da escala e apenas 43% são contrários. No campo oposto, entre eleitores de Lula, o apoio chega a 82%. A leitura que fica é simples: esse não é um debate partidário. É um debate de quem trabalha muito e descansa pouco.

Um recorte chama atenção pelo aparente paradoxo: quem trabalha seis ou sete dias por semana — ou seja, quem seria o mais direto beneficiário da mudança — apoia menos a medida (68%) do que quem já trabalha até cinco dias (76%). O Datafolha oferece uma explicação: entre os que cumprem jornadas mais longas, há maior proporção de autônomos e empresários, para os quais trabalhar mais dias pode significar ganhar mais. Entre os que já têm escala 5×2, predominam servidores públicos, cuja remuneração não varia com o número de horas trabalhadas.

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A geração mais jovem empurra o debate com mais força. Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 83% são favoráveis ao fim da escala — o maior índice de qualquer faixa etária. Esse dado não é acidental: foi justamente a geração Z que protagonizou o movimento nas redes sociais e nas ruas em 2024, tornando o tema viral antes de ele sequer ser formalmente apresentado ao Congresso. À medida que essa geração envelhece e ocupa mais postos no mercado de trabalho, a pressão política por essa mudança tende a crescer.

O recorte de gênero também é expressivo. As mulheres apoiam o fim da escala com mais intensidade do que os homens: 77% contra 64%. A diferença está alinhada com o argumento mais frequentemente usado pelo presidente Lula para justificar a proposta — o de que a redução da jornada beneficiaria especialmente as mulheres, que frequentemente acumulam o emprego com tarefas domésticas e cuidado de filhos, configurando a chamada dupla jornada.

“A redução da jornada de trabalho pode beneficiar especialmente as mulheres, que muitas vezes saem do trabalho e ainda têm um segundo turno em casa.”
— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pronunciamento no Dia das Mulheres

Quanto ao impacto da mudança, a pesquisa mostra que os brasileiros são otimistas para si mesmos e mais divididos quando o assunto é a economia ou as empresas. Sobre a qualidade de vida dos trabalhadores, 76% acreditam que o efeito seria positivo. Para a economia brasileira como um todo, 50% avaliam impacto positivo e 24% negativo. Já sobre as empresas, o empate é quase perfeito: 39% enxergam efeitos positivos e 39%, negativos — a divisão mais honesta da pesquisa, porque reflete exatamente o debate em aberto entre economistas.

O cenário político para a aprovação da proposta é delicado. O governo Lula sinalizou que sua prioridade não é exatamente acabar com a escala em si, mas reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas — o que pode ser feito por lei ordinária, sem precisar de PEC. Presidentes de partidos do Centrão já avisaram a empresários que a estratégia é travar a PEC na Comissão de Constituição e Justiça. A votação pode ocorrer no primeiro semestre de 2026, mas sem um acordo político consolidado, o calendário segue incerto. O que a pesquisa deixa claro, porém, é que o eleitorado já escolheu um lado.

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